Sketchbook 1: Posso ver seu caderno?

Olá!

Conforme o pessoal que segue o Twitter do Vinho Tinta já sabia (se você ainda não segue, aproveita a deixa ;D), junto com julho, acabou também meu primeiro caderno de rascunhos!

Na verdade, esse não é primeiro sketchbook que eu tive, mas é primeiro decente. É o primeiro que me preocupei em procurar um tamanho que me agradasse (A5) , com capa dura, com uma folha boa (Canson 90g/m²)… e que me empenhei em utilizá-lo sempre. Farei uma postagem com um apanhado de outros caderninhos que vieram antes desse para você notar como esse é mais “cuidadinho”.

Alguns dos desenhos desse caderno você já conhece, pois andei postando por aqui ou lá no Twitter, mas aqui vai ele na íntegra:

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Nem todos os desenhos estão finalizados e nem todos são desenhos maravilhosos. Alguns são apenas testes e outros eu cheguei a fazer dentro do ônibus… porque caderno de rascunhos é isso mesmo. Se você ficar com medo de desenhar porque acha que não sabe fazer aquilo, ou que não vai ficar bom, é só se lembrar que aquele caderno é de RASCUNHOS e não de obras-primas que ficarão expostas no Louvre para-todo-sempre-amém.

Uma coisa que talvez trave um pouco as pessoas (pelo menos travava essa pessoa que vos escreve) é que quando os outros (Ah! O inferno são mesmo os outros!) começam a ver você andar com um caderno e a rabiscar aqui e ali… eles inevitavelmente pedem para ver. Não sei se acontece com todo mundo, mas eu me sentia na obrigação de fazer só desenhos lindos no meu caderno, pois as pessoas iam pedir para vê-lo, e eu não podia mostrar um monte de coisas tortas, mal coloridas… ou pior, que demonstrassem falta de criatividade! Afinal, na cabeça das pessoas, todo mundo que desenha é um artista, e artistas são poços inesgotáveis de criatividade!

Essa ideia de que precisamos criar uma obra de arte histórica por dia não faz bem. Fiquei anos sem desenhar por causa disso. Eu achava que se não fosse para ser um Van Gogh, então não valia a pena começar o desenho. Eu tinha vergonha das minhas pinturas, vergonha dos meus desenhos… porque eu não achava que eram bons.

Esse bloqueio de anos foi superado com a ajuda do meu namorado, que me falou uma verdade tão verdadeira que nunca mais esqueci e sempre me lembro quando essas ideias bestas começam a me vir à mente: “Você pode até não ser o Van Gogh, mas se não desenhar… nunca vai ser mesmo“.

É claro! Se queremos ser bons em algo, precisamos fazer, refazer, fazer de novo… até ficar bom o bastante! Estudar, treinar… colocar-se desafios… fazer coisas difíceis e que não sabemos ainda… senão  não aprenderemos!

Depois que me convenci disso, comecei a lidar melhor com o “posso ver seu caderno?”, mas também não foi da noite para o dia. Por um tempo eu ainda me sentia travada quando pegava o caderno, imaginando o que as pessoas iam pensar se vissem aquele desenho tão sem graça que eu tinha pensado em fazer. Cheguei até a tirar algumas folhas desse caderno das fotos aí em cima, simplesmente porque ficaram tortos, ou porque eu não achava que eram dignos de serem mostrados.

Mas acabei me dando conta de que eu estava voltando à mesma paranoia que havia me bloqueado por seis anos… e decidi que dessa vez ia ser diferente. Comecei a pensar: o caderno é meu e é de rascunhos, então eu vou fazer rascunhos nele! Eu posso tentar desenhos de observação que não vão dar certo, posso fazer desenhos de memória que vão ficar bem ruins, posso desenhar vinte vezes a mesma coisa, posso fazer tudo torto, posso pintar de cores que não combinam… posso jogar ele não chão e dançar lambada em cima, porque ele é meu! Os desenhos aqui não serão comercializados, então não tenho compromisso com nenhum cliente, apenas comigo mesma.

“Mas está uma porcaria este aqui, vou arrancar essa folha e fazer outro”. Caí nesse pensamento algumas vezes, mas hoje eu digo com toda a segurança: não tire as folhas do seu caderno de rascunhos. Realmente, quando parei de tirar as folhas do meu, vi como é interessante acompanhar a nossa evolução. Se você notar, nesse caderno das fotos acima, tem desenho sem finalizar, desenho torto, desenho que deu errado… mas eu garanto que é muito interessante olhar para esse caderno agora, terminado, e lembrar desses desenhos ruins. Se você arrancar as folhas, vai se esquecer dos desenhos ruins, mas se deixá-los lá, vai sempre topar com eles quando estiver folhando seu caderno, vai se lembrar dos erros que cometeu e não vai cometer de novo.

E ainda existe o outro lado. Normalmente quem trabalha com desenho tende a se comparar com outros que admira e ficar se achando um lixo humano, mas existem também aqueles que acham que são mitos na sua arte e ninguém é bom como eles. Para esses últimos, é bom ter alguns desenhos feios por perto, para lembrá-los de que eles também erram.

“Mas as pessoas vão ver esse desenho!”.

Só se você deixar. O caderno é seu, é uma ferramenta de estudo, não um portfólio. Se você não se sente confortável para mostrar seus desenhos para alguém: não mostre. Diga educadamente que se sente constrangido, pois são apenas rascunhos, ou pense em outra coisa para dizer, mas não mostre se não quiser mostrar. Algumas pessoas vão entender, outras vão insistir… mas você precisa se lembrar de que não está cometendo um crime. Você não é obrigado a fazer o que te deixa desconfortável.

Outra saída, um pouco menos radical socialmente, é você simplesmente dizer: sim. É a que adotei, mas exige um trabalho de desapego com o próprio ego, ou você vai acabar se travando na hora de desenhar. Esclareça que é um caderno de rascunhos, esteja seguro de suas qualidades, ciente de suas limitações e deixe que a pessoa tire as conclusões que quiser. Se ela ficar desapontada com seu caderno, é um problema dela, que criou expectativas baseadas em sabe-se lá o que. Você não é culpado se a pessoa esperava por uma Monalisa em cada página e você só pôde oferecer uns poucos esboços tortos.

Seu caderno de desenhos é algo muito pessoal, e é uma decisão sua compartilhá-lo ou não com os outros. Ninguém é obrigado é mostrá-lo, mas se decidir mostrar, lembre-se de que você é avaliado (numa situação de trabalho, por exemplo) por seu portfólio, não por seus rascunhos.  Não tenha medo de rabiscar e nem vergonha dos seus rabiscos, eles são parte de um processo de aprendizagem e de construção de repertório. Talvez as pessoas não entendam isso, mas o que importa é que você entenda, para poder manter uma boa relação com seu amigo de sempre, o sketchbook.

 

Você usa sketchbook? Como é sua relação com ele? Conta pra gente nos comentários!

Um abraço e até mais,

 

Nani

 

 

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Meus materiais 2: Lápis de cor aquarelável Koh-I-Noor Mondeluz (parte I)

Olá!

Hoje venho mostrar mais um dos materiais que utilizo nos meus desenhos, os lápis da marca Koh-I-Noor Hardtmuth Mondeluz. A linha Mondeluz é a linha aquarelável da Koh-I-Noor e existem versões de 12, 24, 36, 48 ou 72 cores. Minha lindona é a de 48:

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Como dá  para perceber, minha caixa já está usada. Na verdade, poderia estar até mais usada. Eu ganhei essa caixa de presente de aniversário em setembro do ano passado, mas faz pouco tempo que superei meu medo infinito de gastar esses lápis.

Desde quando eu decidi investir em materiais melhores, eu estava namorando essa caixa , e no meu aniversário acabei ganhando (na verdade eu estava namorando a de 36 cores, então o presente saiu melhor que a encomenda! Amor ♥). Entretanto, como eu já comentei lá no Twitter do Vinho Tinta, o problema de materiais caros é que eles me bloqueiam, fico com muito medo de errar com eles e gastar material à toa (nenhum desenho é à toa, mesmo o desastrosos, pois eles nos dão experiência. Infelizmente, falar isso é mais fácil do que seguir).

A embalagem dessa caixa é de papelão, dentro há duas bandejas de plástico com 24 lápis cada, e na parte de baixo de cada bandeja vem um pincel (um número 3 e um número 8) , como é possível ver pelas fotos acima. Em um compartimento secreto vem um apontador:

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Olha os pincéis e o apontador aí:

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O apontador é muito simples, de plástico transparente, mais básico do que isso seria impossível. Não é nada que você não possa encontrar na papelaria da esquina e levar para casa por R$ 2; ainda assim, é o apontador que eu uso e tem me servido muito bem (aliás, ele já apareceu em outra resenha aqui).

Os pincéis já surpreendem um pouco mais, são excelentes!

Quando vi que vinham dois pinceis na caixa, imaginei que seriam bem fuleira, só para matarmos a vontade de aquarelar, mas que depois seria necessário comprar um pincel bom… que engano o meu! Eu diria que dá para ficar só com esses dois pinceis tranquilamente, pois além de serem muito bons, a escolha dos tamanhos também foi muito inteligente.

Na caixa não fala qual o material das cerdas desses pincéis, mas são tão macias e delicadas que não posso acreditar que sejam sintéticas. Se alguém souber o material dessa cerdas, por favor, deixe nos comentários, pois eu realmente gostaria de saber. Eu tenho pincéis sintéticos, de pelo de marta, de marta tropical (apesar da incoerência do nome) e de orelha de boi, mas acho que esses são os mais macios que tenho!

Agora vamos às estrelas:

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A mina desses lápis é muito macia, como é comum entre os lápis aquareláveis e pouquíssima coisa maior um lápis comum (estou usando como referência os lápis de cor da linha escolar da Faber-Castell, que todo mundo conhece). O corpo do lápis também é parecido com um lápis comum e é sextavado, mas com as quinas mais suaves do que os escolares da Faber. Para mim, isso de corpo triangular, redondo, sextavado… não faz a menor diferença. A única coisa que realmente me faz estranhar ou não um lápis é o diâmetro do corpo. Quando o corpo do lápis é muito grosso ou muito fino, então eu sinto alguma diferença na hora de pintar, mas isso não acontece com esses lápis. Nas duas fotos abaixo eu coloquei um lápis Mondeluz (lápis da esquerda) ao lado de um comum (lápis da direita) para vocês verem como são parecidos:

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Assim como a mina, a madeira também é muito macia (na propaganda diz que os lápis são feitos de Cedro, não sou especialista em madeira, mas essa é tão macia que eu acredito), então são muito fáceis de apontar. E como eles são muito bem pigmentados, você não precisa fazer força alguma para deixar bastante cor no papel. A pedreira aqui, acostumada com lápis de cor escolar (bem mais duro), demorou para pegar o jeito e o resultado é que meu lápis preto já está quase na metade (e não é porque usei tudo isso, é porque quebrei muitas vezes a ponta dele).

Apesar de os lápis serem muito macios, não achei que se desgastam tanto como li em algumas resenhas. Como eu disse, eles são muito pigmentados, então praticamente não é preciso fazer força e com quase nada de mina, você tem uma cor muito intensa, uniforme, brilhante e bonita. A dificuldade talvez venha do fato de que, por serem muito macios, mesmo afiando bem as pontas deles, elas não duram muito.

Importante observar também que, apesar dessa etiqueta:

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esses lápis têm qualidade intermediária. Provavelmente essa etiqueta foi colocada pela loja para diferenciar essa caixa de outras de menor qualidade, mas não chega a ser um material profissional.

Existem basicamente três tipos de lápis de cor, os lápis de linhas escolares/estudantes, os lápis intermediários e os lápis profissionais/artísticos. Os lápis de linhas de linhas escolares são muito básicos, a mina deles tem menos pigmentos, a madeira é menos nobre, então as cores são menos intensas e os lápis mais duros. É possível fazer bons trabalhos com eles, mas você sofre um pouco mais e seus desenhos provavelmente desbotarão com o tempo (ainda pretendo fazer uma postagem sobre a qualidade da resistência à luz dos lápis de cor, mas, em linhas gerais, os pigmentos dos lápis escolares são inferiores e não resistem bem à luz, por isso acabam desbotando). Os lápis de linhas intermediárias são o primeiro passo rumo aos lápis profissionais, por isso apresentam muitas das características comuns aos lápis profissionais, como uma mina mais macia e mais pigmentada. Há quem diga que muitas linhas intermediárias (as da Koh-I-Noor, por exemplo) não perdem em nada para as profissionais. Foi  com isso em mente que preferi me aventurar com uma caixa de lápis intermediários (um pouco mais baratos) antes de investir meu rim em uma caixa profissional. Os lápis profissionais são fabricados pensando não apenas nas cores, mas também na durabilidade dos trabalhos, por isso, além da maciez e boa pigmentação da mina e da nobreza da madeira, as cores são mais resistentes à luz.

Uma boa maneira de saber se os lápis que você está levando para casa são intermediários ou profissionais (além do preço) é pesquisar nos site da marca sobre a linha que você está adquirindo, pois a marca sabe o que está vendendo, mas loja em que você está comprando, nem sempre sabe. Marcas sérias costumam respeitar seus clientes e diferenciar muito bem seus produtos. Se não houver nenhum tipo de indicação ou preocupação com a menção à qualidade e nobreza dos materiais, bem como à resistência à luz, provavelmente esses lápis não possuem tais características e não podem ser considerados profissionais. Não há problema nenhum em comprar lápis escolares ou intermediários, você só precisa estar informado para poder levar exatamente o que procura. Uma dica um pouco mais prática para diferenciar os lápis é que os profissionais costumam vir melhor embalados (em embalagens de metal ou madeira), enquanto os demais costumam vir em embalagens de papelão; além disso, os lápis profissionais são vendidos também avulsos, justamente para que os artistas possam repor seus estoques sem precisar comprar o estojo todo.

***

Fiz um desenho para mostrar os Koh-I-Noor Hardtmuth Mondeluz em ação. O desenho todo foi feito com esses lápis, até mesmo o esboço. Não é bom usar lápis grafite para fazer esboço quando se pretende aquarelar depois, pois ele vai manchar quando você passar água, ou então a parte colorida vai aquarelar e a parte em grafite vai ficar intacta – um lindo risco de grafite na sua aquarela. Em qualquer um dos casos, não é bom.

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Olha como esses lápis são pigmentados, como a cor é intensa! Não fiz força nenhuma e olha como as cores ficaram vibrantes:

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As cores também dissolvem e se misturam muito bem quando molhadas:

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Como acontece com qualquer aquarela, as corem ficam um pouco mais claras depois de secas:

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Depois de secas, as cores não aquarelam de novo, isso possibilita que você passe o lápis e aquarele por cima sem comprometer a camada de baixo. Eu acho isso uma vantagem.

Também é possível utilizar esses lápis como uma aquarela comum. Basta riscar um papel qualquer (eu risquei a fita crepe que prendia meu desenho) e utilizar seu rabisco como utilizaria uma pastilha de aquarela:

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Fiz o fundo todo do desenho com essa pastilha de aquarela improvisada. E esse foi o resultado final:

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Para esse teste eu utilizei papel Canson 224 g/m². Essa gramatura é baixa para aquarelar, o papel não suporta muitas aguadas, então, em alguns pontos ele ficou meio áspero, mas a culpa não foi dos lápis ou do papel, eu que fui teimosa. Fora isso, os lápis são realmente ótimos e recomendo a todos que queiram lápis aquareláveis macios, com cores fortes e que  dissolvem e se misturam bem.

Em breve postarei a segunda parte desse assunto, que é sobre usar lápis aquareláveis sem aquarelar (é possível e muita gente faz, mas eu não achei que é um negócio tão bom assim).

Espero que essa postagem tenha sido útil 😉

Aproveita que está com a mão no mouse e segue o  Twitter do vinho Tinta  😉

 

Até mais :*

 

 

Nani