Desenhe com qualquer coisa (Cheap Art Supply Challenge)

Existe um desafio correndo a internet que talvez você já tenha visto: o desafio do material artístico barato (ou Cheap Art Supply Challenge, já que esse desafio começou em territórios gringos). É um desafio bastante simples, basta você desenhar o que normalmente desenha, mas utilizando materiais baratos e fáceis de encontrar.

Decidi participar desse desafio, pois ele me dava oportunidade para escrever sobre um assunto que tenho vontade de tratar desde quando comecei esse blog: você não precisa de muito para desenhar.

Antes de começar, quero mostrar o desenho que fiz para o desafio e os materiais que utilizei: lápis grafite comum, uma caneta borracha comum, uma régua mais comum ainda e uns lápis de cor escolares que tenho aqui. Fiz o desenho no meu caderno de rascunhos, que tem folhas de papel Canson 90 g/m² em tamanho A5.CAM01052.jpg

A maioria dos lápis são da linha escolar da Faber-Castell, que podem ser encontrados em qualquer papelaria. Depois da minha resolução de investir em materiais de melhor qualidade, eu deixei de usar esses lápis, mas ainda os mantenho por perto, especialmente porque minhas gatas gostam de ficar pegando minhas coisas enquanto desenho. Eu gosto da companhia delas, mas não posso deixar elas estragarem meus materiais, então eu dou algum lápis que não uso mais para elas mordem enquanto eu uso outros. Olha o estado que elas deixam os lápis, veja se tem condições de eu deixar elas pegarem o que quiserem:

CAM01042.jpg

Mas voltando à questão que importa aqui, eu vejo muitos vídeos, muitas resenhas de materiais, muitos tutoriais, leio bastante sobre esse tipo de assunto, especialmente quando pretendo comprar algo que ainda não conheço, e já vi tanta aberração! Uma vez vi um vídeo de uma menina que estava falando sobre lápis de cor e ela indicava os da Prismacolor. Até aí, tudo bem, até eu indico os da Prismacolor, eles têm as cores de lápis de cor mais lindas  que já vi, mas para causar falar que os da Prismacolor eram bons, ela pegou aqueles lápis comuns que encontramos na papelaria da esquina e quebrou! Falou que não prestavam para nada e quebrou os lápis! Qual a intenção desse ser além de causar  eu não sei. Achei um desrespeito muito grande.

Não vou dizer quem foi, porque é um canal grande e é possível que você tenha visto; além disso, acho que a garota só fez isso porque pensou que o vídeo ficaria mais divertido (sei lá o que passa na cabeça dessas pessoas) e ela chegou a fazer outros vídeos, depois, sobre materiais bons e baratos. Sem contar que esse foi um exemplo que me doeu, mas ela não é a única que tratou mal os materiais mais baratos e não merece levar sozinha toda a culpa.

O que importa e que me doeu foi a falta de respeito com o material. Eu também tenho um caldeirãozinho cheio de lápis escolares que não uso mais e que deixo minhas gatas morderem, mas se alguém me perguntar, vou dizer que é possível fazer coisas lindas com eles. Eu sou a favor da máxima de que desenhista que é desenhista, desenha até com o dedo.

Não estou dizendo que bons materiais não influenciam no resultado, pois influenciam muito, o que estou dizendo é que você não deve desistir de desenhar porque só tem um lápis grafite de qualidade duvidosa e uma borracha ainda mais suspeita. Detesto gente melindrosa, que para fazer uma coisa precisa de todo um aparato e uma conjunção astral perfeita. Arrume um jeito, não uma desculpa! Qualquer coisa que risque serve para desenhar! Até um graveto! Você pode desenhar na terra com ele e fazer algo maravilhoso. O que importa é seu empenho, seu talento e sua criatividade. Mas você não precisa acreditar em mim, digite Cheap Art Supply Challenge nas suas redes sociais e tire suas próprias conclusões.

É evidente que uma aquarela de qualidade inferior não vai te oferecer a transparência que você deseja (não adianta, não vai), os lápis de cor mais comuns não são feitos com os mesmos pigmentos que os profissionais, então não terão a mesma cor, os papeis de gramatura mais baixa também não oferecerão a mesma textura e, especialmente, nenhum desses materiais mais baratos vai te oferecer muita resistência ao tempo (eles normalmente amarelam ou desbotam com o passar dos anos e não há nada que você possa fazer). Mas você precisa desenhar apesar disso! Se sua intenção é se expressar artisticamente, a limitação dos materiais deve ser algo a ser contornado e não uma barreira intransponível. Precisamos aprender a entender e a respeitar cada material. Quando entendemos suas características, somos capazes de utilizá-las a nosso favor e evitar resultados desagradáveis.

Para quem está aprendendo a desenhar ou que desenha apenas por hobby, não vejo razão para gastar mais de vinte reais em um (pois é, UM) lápis 6B da Caran d’Ache, sendo que, no caso do aprendiz, ele ainda precisa resolver uma série de questões mais urgentes (como luz, sombra e proporções) e, no caso do hobbysta, a diferença pode não valer o investimento (a não ser que a pessoa tenha dinheiro o bastante para não sentir o peso no bolso, mas aí a conversa já é outra).

Materiais de qualidade profissional são difíceis de encontrar, pois a maioria é importada, então não é qualquer estabelecimento que os oferece; além disso, são muito caros. Desenhistas profissionais precisam recorrer a esses materiais por várias razões, uma delas é o desejo que se tem, depois de esgotar as possibilidades de um material mais simples, de explorar materiais com mais qualidade, mais cor, mais maciez… mais textura… Mas note que esses desenhistas, normalmente, fazem isso há anos, e aqueles problemas básicos de proporção, perspectiva, luz e sombra já foram superados, então eles já estão na fase de se dedicarem às texturas e às cores mais ricas, o que só podem conseguir com materiais mais nobres. Outro motivo que leva os desenhista profissionais a, invariavelmente, precisarem de materiais mais caros é a comercialização de originais. Quando você faz um desenho para vender, é preciso que esse desenho atenda a um padrão de qualidade. A pessoa que paga por um desenho quer, pelo menos, que ele dure, e um material mais simples não vai oferecer essa durabilidade (como eu disse, os papéis costumam amarelar e as cores costumam desaparecer com o tempo. Aliás, desconfie de anúncios de desenhos muito baratos, um bom trabalho exige anos de dedicação do desenhista e bons materiais, isso acaba afetando no preço).

Se você pretende comercializar seus desenhos, assegure-se de estar utilizando bons materiais, não seria justo com seu cliente se você fizesse de outra forma. Entretanto, nos tempos modernos nem tudo é assim tão rígido, pois se você comercializar seus trabalhos apenas em meio digital, o uso de materiais duráveis não será imprescindível, uma vez que é possível editar seu trabalho (caso as cores careçam de mais intensidade, por exemplo) e, no meio digital, não existe a possibilidade de o seu desenho mudar com o tempo.

Antes de terminar essa postagem, eu gostaria de aproveitar para mostrar alguns desenhos da época em que voltei a desenhar e que eu não tinha mais materiais de desenho em casa. Tudo o que eu tinha era um lápis 2B da Faber-Castell, desses que a gente usa para escrever, um cotoco de 6B da CIS, uma borracha comum e umas folhas de A4 Chamex 75g/m² (aqueles que a gente usa para impressão e que amassam à toa). Eu só tinha materiais baratos e de fácil acesso, mas eu não podia deixar a vontade de voltar a desenhar passar.  É isso que estou tentando incentivar aqui: não deixe de desenhar porque você não tem algum material. Improvise! A criatividade já vai começar logo no uso dos materiais, e não é exatamente esse o espírito da arte?

Os desenhos abaixo são dessa época de recomeço:

Salvador Dali - grafite 6B.jpg

Simone de Beauvoir - grafite 6B.jpg

Vênus de Milo - grafite 2B.jpg

Thiago (cubismo) - grafite 2B.jpg

Eu gosto de todos esses desenhos. Não são os meus melhores (não pelos materiais, mas porque eu tinha ficado muito tempo sem pegar em um lápis), apesar disso, fiquei satisfeita com eles e me senti confiante para ir retomando o desenho.

Um dos desenhos que mais gosto também foi feito com o mesmo papel ruim e lápis escolares que hoje minhas gatas mordem. É um retrato do Nelson Mandela, feito no A4 Chamex 75g/m² e com os lápis mordidos do caldeirãozinho que mostrei no início da postagem:

Nelson Mandela - lápis de cor.jpg

De todos os retratos que eu já fiz na vida esse é um dos que eu mais gosto, não apenas por ser de uma pessoa que dispensa comentários, mas pelo desenho mesmo. Achei que foi um dos melhores que já fiz, ficou com as proporções boas, com as cores bem realistas, com volume, expressão… gosto muito dele. E olha só: feito com o que eu tinha na hora! Não comprei nenhum material especial para fazê-lo. Acho que isso prova mais uma vez que é possível fazer um desenho do qual se orgulhe com muito pouco.

Espero, verdadeiramente, que essa postagem possa ter acendido em alguém aquela vontade de desenhar, independente dos materiais disponíveis. Aquela certeza de que o realmente importante é o seu desenho, a marca que você quer deixar no mundo, e não o que usou para criar essa marca.

Não esquece de comentar sobre suas experiências com materiais mais simples e, se tiver participado do desafio do material barato, aproveite para deixar o link do seu desenho!

Um abraço e até mais,

 

Nani

 

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Lista de desafios (desafio 9): mulher nua em sanguínea

 

Olá!

Mais um desafio terminado! Dessa vez eu precisava desenhar uma mulher nua em sanguínea. Para quem está chegando agora, expliquei como funcionam esses desafios aqui.

Fazia uns dias que eu estava com O nascimento de Vênus, de Botticelli, colado na minha prancheta, esperando uma oportunidade. Quando saiu esse desafio, de início pensei em desenhar apenas a Vênus, depois resolvi fazer o quadro todo, depois resolvi fazer o quadro todo, mas com a Vênus em outra posição… depois mudei completamente de ideia e decidi desenhar uma cena cotidiana.

Simples? Nem um pouco.

Eu queria usar como referência uma foto de alguma mulher que não estivesse agindo estranho porque estava pelada. Pensei em algo mais natural, como aquela foto da Simone de Beauvoir se vestindo no banheiro. Na verdade, pensei em desenhar exatamente essa foto, mas também desisti, pois queria uma anônima qualquer posando e uma foto menos conhecida. Nesse ponto eu já tinha bem claro na minha mente o que eu queria, só não estava conseguindo encontrar a foto certa para me servir como referência.

O problema é que eu queria uma foto espontânea, de uma mulher normal, que não fosse modelo e que não estivesse fazendo nenhuma pose forçada. Aqueles ensaios sensuais estavam fora de cogitação, eu não queria ninguém fazendo “carão”. Eu queria alguém com cara de cansada, de triste, de feliz, de medo… alguma expressão autêntica. Aqueles ensaios mais conceituais, apesar de serem lindos, também não me serviam.

Procurei por muitos dias até que finalmente encontrei o The Nu Project! Finalmente alguém estava falando a minha língua! Nesse projeto, pessoas comuns são fotografadas em seus próprios ambientes, fazendo coisas normais: dando risada, cozinhando, conversando, mexendo no computador… Não tem ninguém agindo estranho porque está nu, não tem nenhum corpo muito diferente dos nossos, a beleza vem da naturalidade e graça vem da identificação com as pessoas fotografadas. Veja o site e vai entender do que estou falando.

A partir daí, o problema foi escolher a foto, pois, dessa vez, muitas serviam ao meu propósito. Acabei escolhendo a foto de uma mulher tomando vinho e sorrindo, em homenagem ao Vinho Tinta (=D). Esse foi o resultado:

mulher nua com taça de vinho - sanguínea.jpg

Sanguínea é uma espécie de giz marrom-avermelhado que dá esse tom lindo e esse jeito de rascunho profissional. Nesse caso, usei o lápis pastel seco Gioconda, da Koh-I-Noor Hardtmuth, cor Red Chalk. Esse desenho fiz no meu caderno de rascunhos mesmo, ele é da Canson, com folhas de 90g/m² em tamanho A5. Uma parte do desenho está com a cor menos vibrante, menos avermelhada. No desenho original não está assim, a cor está bem uniforme. Mas acho que sei o que houve: meu esfuminho estava sujo de grafite e não limpei direito antes de esfumar o pastel, o que manchou o desenho. Consegui limpar o desenho original e a mancha ficou imperceptível, mas, quando digitalizei, o fundo do grafite deve ter aparecido. Como o caderno é espiral, algumas partes do desenho também não tocaram o vidro do scanner… acho que isso contribuiu para que uma parte ficasse fora de foco… e como minha habilidade com o Photoshop não me permitem correções desse tipo… acho que da próxima vez devo fotografar ao invés de scanear desenhos desse caderno.

Tenho algumas dúvidas quanto a umas partes do desenho, mas de maneira geral, gostei de fazê-lo e gostei do resultado final. Penso que transmite a naturalidade que eu estava buscando, o resto são detalhes.

Agora é só sortear o próximo desafio! Assim que eu fizer o sorteio, aviso lá no Twitter do Vinho Tinta. Aproveita pra seguir 😉

 

Até mais,

 

 

Nani